Por Henrique Maynart/Ascom Sinasefe
Culminar, verbo transitivo indireto. Chegar ao auge, ao apogeu, ao ponto mais alto ou intenso de algo, atingir o máximo. Na última sexta-feira (29), o Edital Novembro Negro do Sinasefe Sergipe culminou em treze ações de literatura, dança, música, cinema, debate e produção de memória espalhados pelos nove campi do Instituto Federal de Sergipe (IFS), além de ações externas.
Em um estado majoritariamente negro entrecortado por mais de três séculos de escravidão no lombo de sua história, o fortalecimento da negritude sergipana é tarefa pra ontem. Culminar a resistência antirracista é possível, necessário e mais que urgente.
Comes, bebes e alguma amenidade na casa nº 1901 da Rua Estância, sede do Sinasefe Sergipe. A última sexta-feira do novembro negro recebeu integrantes e participantes dos projetos contemplados no edital, que movimentaram ações num montante de 13 mil reais investidos diretamente pelo sindicato.
PROJETOS
O projeto “Mini-Mostra de Cinema Negro”, organizado pela servidora Luzileide Silva, articulou ações no Campus Estância para a promoção e divulgação do cinema negro brasileiro e sergipano, em parceria com a “Mostra Egbé”.
O mesmo Campus também recebeu o projeto “Arte, Literatura e Resistência”, coordenado pela professora Jocelaine Oliveira, com na literatura de Carolina de Jesus, Ferrer, Lima Barreto, dente outros nomes da literatura negra ofuscados pelo decorrer de um projeto pedagógico racista e invisibilizados no decorrer das décadas.
O edital também contemplou ações externas, como o projeto de Capoeira de Angola nas escolas públicas organizado pelo Grupo Abaô. Jonathas Vasconcelos, membro do grupo Abaô, esteve presente na sede do Sinasefe e falou um pouco sobre as ações do projeto. “ Capoeira trabalha os processos de resistência articulados com a corporalidade, a disciplina e a autoestima. A Capoeira é a nossa herança de combate, ela é muito mais do que uma atração bonita pra turista”, afirmou.
COTA NÃO É ESMOLA
O servidor Jailson Cardozo dos Santos falou um pouco sobre o projeto “Cota não é esmola”, organizado no Campus IFS Aracaju. “A política de cotas raciais e sociais é o cumprimento de uma dívida histórica com o povo preto de Sergipe e do Brasil. Valorizar, disputar o seu espaço e a sua narrativa é fundamental num momento de ataques e retrocessos orquestrados pelo Governo Bolsonaro”, reiterou.
Aquilombar é preciso. Marília Cerqueira, do Coletivo Afronte, falou sobre o projeto “Memória, reconhecimento, valorização e empoderamento”, organizado junto à comunidade quilombola do povoado Caraíbas, localizado no município de Canhoba. “Conhecer e reconhecer as comunidades e focos quilombolas é fundamental para o fortalecimento da negritude sergipana. Reconhecer o Quilombo é reconhecer o peso da Escravidão na história do povo brasileiro e suas resistências”, citou.
HORA DA REAÇÃO
Ao todo, foram contemplados nove movimentos sociais sergipanos, dentre eles os coletivos Afropower, Quilombo e Afronte, DCE IFS, Grêmio Estudantil Marcelo Deda e Quilombo Ubuntu de Teatro Negro. Logo após as apresentações dos projetos, o público curtiu o formato acústico da banda Reação. Trazendo releituras de ícones da música negra brasileira, como Tim Maia, Jorge Ben, Grupo Tincoãs e Roberto Ribeiro, o grupo também chacoalhou a caixa de som com o repertório próprio, como “Sinal de Alerta”, “Os eleitos”, dentre uma playlist carimbada pelo reggae sergipano.
No canto esquerdo da Rua Estância, quase na boca do portão do Campus Aracaju a Casa 1901 abrigou algum respiro para outro IFS, outra cidade e outro mundo possível, na resistência antirracista para rememorar o assassinato de Zumbi dos Palmares. Novembrar nunca é demais.